Monárquicos criticam "mediatização acéfala"

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"O PPM nunca teve votações maciças, mas tinha a tradição de ser um partido de princípios e de doutrina. É essa tradição que nega, ao estabelecer uma candidatura destas, que em termos políticos nada tem a dizer e tem como único objectivo o impacto mediático" - foi desta forma que Augusto Ferreira do Amaral, um dos poucos históricos do PPM que ainda é militante, reagiu ontem à notícia do 24 Horas de que Elsa Raposo será candidata à Câmara de Cascais em representação desta força partidária.

Ferreira do Amaral, que em 1981 foi ministro da Qualidade de Vida, num governo da AD, e que no início deste mês se candidatou à presidência do PPM, no congresso em que saiu vitorioso o fadista Nuno da Câmara Pereira, lamenta a forma como o partido está a ser dirigido, numa lógica de "mediatização acéfala da política" e confessa que "é difícil acreditar neste PPM". À pergunta como é que o PPM chegou a este ponto?, responde apenas tirando o ponto de interrogação "Como é que o PPM chegou a este ponto!", exclama.

Gonçalo Ribeiro Telles, o rosto histórico do PPM, que se desvinculou em 1994, para fundar o Movimento Partido da Terra, nem quer comentar a candidatura autárquica da concorrente da Quinta das Celebridades pelo partido que ajudou a criar. "Não sei quem é essa senhora, nem sei o que é o PPM". Para o arquitecto, "aquilo [o PPM] é uma burla". O estado do partido, diz, "é um reflexo do estado a que chegou o País". E o facto do PPM ter eleito dois deputados nas últimas legislativas, nas listas do PSD de Santana Lopes, "só mostra o estado a que chegou o PSD".

"PPM não existe".O repúdio pelo rumo que o partido tomou na última década, mas sobretudo nos últimos tempos, sob a batuta dos irmãos Câmara Pereira (Nuno é o presidente, Gonçalo, também fadista, é vice-presidente e líder da distrital de Lisboa) é comum entre os representantes da causa monárquica. "O PPM morreu", garante António de Sousa-Cardoso, presidente da Causa Real, organização criada há sete anos e que federa as reais associações que se constituíram há uma década em todos os distritos. "Neste momento é um partido familiar dum fadista e mais nada", acrescenta Ricardo Abranches, presidente da Real Associação de Lisboa.

"Enquanto partido, o PPM deixou de ter qualquer tipo de relevância", diz Sousa-Cardoso, lembrando que, nas últimas vezes que foi a eleições, rondou os 12 mil votos. "Com esta nova direcção, o PPM deixou de ser um projecto político coerente. É um grupo que reúne umas quantas celebridades que têm acesso à comunicação social e que animam o seu extertor com um populismo para encher páginas de jornais com fait-divers".

Nuno da Câmara Pereira foi eleito presidente do PPM a 5 de Junho, com 61 votos a favor e 31 contra. Os congressistas não chegavam aos cem mas, à falta de ficheiros do partido, não havia forma de comprovar a sua inscrição. "Não se sabia se todos eram militantes e houve muitos militantes que nem souberam que havia congresso", relata Ferreira do Amaral.

Câmara Pereira reconhece que "os ficheiros andam dispersos", por isso não sabe quantos são e quem são os militantes do PPM. Ao DN, explica que lançou um processo de refiliação e já tem "perfeitamente situados" 500 militantes. Mas acredita que, no total, serão "entre 5 mil e 10 mil".

"Está curada da depressão". Sobre a escolha de Elsa Raposo, conhecida figura das revistas de social e concorrente da Quinta das Celebridades, para candidata à Câmara de Cascais, Nuno da Câmara Pereira é cauteloso "Não conheço a pessoa, e primeiro tenho que saber quais as vantagens e desvantagens dessa pessoa: idoneidade, inteligência, respeitabilidade, pensamento político, prestígio que tem na sociedade e vontade de prestação humilde em relação à sociedade e ao partido". Para o líder do PPM, não é indispensável que os candidatos sejam monárquicos, nem que tenham experiência política. "À partida, não há ninguém que esteja fora de hipótese de ser candidato" pelo partido: "Queremos pessoas comuns, com defeitos e com virtudes. O PPM quer renovar a classe política e aproximar os cidadãos da política".

Foi Gonçalo da Câmara Pereira, líder da distrital de Lisboa e vice-presidente do PPM, quem convidou Elsa Raposo para ser candidata. Ontem à noite, já depois do fecho desta edição, ia defender a sua escolha no "directório" do partido.

Também ele ex-concorrente da Quinta das Celebridades, explicou ao DN as razões do convite "Convivi com a rapariga todos os dias durante mês e meio. Embora ela tenha saído da Quinta com uma depressão, se me dizem que ela está curada, está curada. Também já houve ministros ex-toxicodependentes e não veio daí mal ao País". Gonçalo "acha" que a putativa candidata não é monárquica, o que não o preocupa: "É uma mulher independente, que não precisa de macho, que se preocupa muito com as questões sociais e que é uma visitadora nata." Terá perfil para o cargo? "Quem decide isso é o voto popular, não é meia dúzia de bombocas que andam por aí."

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